Minha experiência com a Bênção

Sempre tomei a bênção de meus pais e de meu avô. Ser abençoada, sobretudo por meu avô, era especial. Pegava a mão dele e a beijava, dizendo: “Bença Vô”. Ele pegava a minha mão e a beijava, dizendo, “Deus te abençoe”. Sentia um amor vindo daquele momento, que me fazia sempre correr para os braços dele e pedir-lhe a bênção. Aquele era um momento especial, como um hiato no tempo, em que tudo parava e só existia a bênção de meu avô. Como ele me fazia sentir abençoada!!! Acredito que, meus irmãos e primos sentiam-se assim também, abençoados por este amor.

Hoje, ao escrever sobre a bênção, percebo que algo mágico acontecia naqueles pequenos momentos com meu avô. O seu rosto, marcado pela idade, continha uma expressão de profundo acolhimento, que sentimos de alguém, que te aprova do jeito que você é, sem cobranças, julgamento e nem vir a ser. Para meu avô, eu era aquela criança eternamente querida e aceita, independente do que fizesse. Seus olhos pareciam me dizer o tempo todo, “você é importante e profundamente amada”. Penso que ser amada assim, incondicionalmente, é sentir como o próprio Universo nos ama. Sem motivos e condições para o amor. Apenas viemos Dele e, só por este motivo, o amor acontece e entramos no Fluxo do Universo.

Hoje, vejo que toda a minha força ancestral estava ali presente. Como se todos meus avós, bisavós tataravós…, estivessem contemplando mais uma vida, advinda deles, que era a perpetuação de suas próprias vidas.

Sentir esta força foi realmente especial. Meu pai também me abençoava, porém, sentia dele uma responsabilidade com minha vida, com a disciplina, a educação, o futuro etc. Era uma bênção diferente, não tão acolhedora quanto a de meu avô, porém, me fazia estar segura, por sentir que alguém forte cuidava de mim. Minha mãe também sempre me abençoou. Que delícia sentir que alguém cuidava com detalhe, com um olhar que parecia onipresente, sempre observando a mim e aos meus irmãos, e garantindo todas as nossas necessidades satisfeitas! Sentia que de minha tia também vinha este afeto.

Eu pertencia a um meio familiar, onde só me ocupava de viver, assim como fazem os lírios do campo. Minha vida se nutria daquele meio, enquanto crescia com força. Como uma planta que recebe nutrientes de suas raízes, até se tornar uma árvore com frutos. Sentia que os momentos de bênção eram fertilizantes naturais, e me garantiam mais força para crescer em todos os sentidos. Daquelas raízes, recebia muitos resíduos, que fazia com que alguns galhos desviassem de seu percurso natural, outros ressecassem, outros atrofiassem e outros seguissem cheios de folhas viçosas.

Os resíduos foram todas as crenças, valores, conceitos que recebi e herdei, não só de minha família consanguínea, assim também, de meu meio social, cultural e religioso. Percebia que toda a minha vivência familiar era permeada de amor. Um amor que, em alguns momentos, era uma chama sem fumaça, límpida e brilhante. Outros momentos, uma chama com muita fumaça, como uma fuligem escura, gerada pelas dificuldades e emaranhamentos próprios do sistema familiar e do meio social.

Hoje, tenho muita gratidão por tudo. Porque o que recebi foi o melhor que puderam me ofertar e foi bem maior do que faltou. Muitas vezes, me vieram incompreensões, revoltas, mágoas e rebeldias, até que compreendi que, cada um, dá o seu melhor e todos estão no seu lugar certo.

O que importa não é o que recebemos, porém, o que fazemos com o que recebemos. Neste momento, vi que tudo o que me acontecia e acontece, tem simplesmente a ver comigo e ninguém mais. Eu sou a responsável. Esta conclusão em si já é uma bênção, pois me confere tomar a vida pelas mãos, considerando e honrando as raízes, mas me responsabilizando pelos frutos.

Hoje, me relaciono com a bênção, não só sentindo o amor de meu avô, pais, tia e até de meus ancestrais, mas, também, como uma atitude na vida. Comecei a refletir que, se a vida me trouxe para aquela família, algum propósito tem. Ninguém cai de paraquedas num contexto, somos ressonantes àquelas pessoas, de alguma forma, temos algo a ver com elas. Acolher este pertencimento me garante receber a força deste campo de energia, que é minha família, com toda história, triste e feliz, que ela traz.

A bênção é como se fosse um elo de amor, que me coliga com este campo de energia, que tem vida, é forte, pulsante e garante vitalidade. Senti que poderia abençoar este campo e me harmonizar com ele, incluindo tudo e todos, mesmo que a grande maioria das pessoas e dos fatos ocorridos naquele campo, eu jamais viria a conhecer. E nem tinha que conhecê-los, apenas acolhê-los em meu coração.

Comecei a perceber que, meus pais foram chaves que abriram a porta, para eu delicadamente entrar naquele campo, e receber dele, força de estrutura para viver. Só por isto, já são dignos de minha honra. Não há como nascer sem pertencer a algum campo familiar. Mesmo os órfãos pertencem a um, ainda que não os conheça. Reconhecer e honrar este campo é fazer de sua própria vida, algo que valha a pena.

Muitos de meus ancestrais viveram uma vida difícil, alguns superaram dificuldades, outros não. Houve fatos impactantes, segredos, medos, dúvidas, tragédias… Assim como há em toda a família. Tudo isto tem que ser respeitado, sem ao menos precisar ser conhecido. Fazer de minha vida o melhor que puder – este é o desafio. Desta forma, saberei honrar meus pais e ancestrais, em homenagem a tudo o que eles viveram. A bênção pessoal é um caminho para isto.

Assim como o olhar de meu avô, me trazia a sensação de um amor pleno e incondicional, percebi que podia me conectar com esta Força, vinda de uma Fonte Única, em que Nela, todos fazem parte, inclusive meus amados ancestrais, e toda uma Consciência, chamada humana, que anseia por paz, amor e redenção. Simplesmente não há diferença, somos realmente todos Um. Lidar com a bênção pessoal era um grande desafio, do qual, meu ego pouco gostava.

Afinal, como abençoar quem e o quê me incomodam? Num primeiro momento achei difícil de conceber esta ideia, até que os acontecimentos chegaram, e o sofrimento veio como bônus incluído no pacote. Percebi que nesta viagem empreendida, que se chama vida, há realmente dois veículos que podem nos conduzir. Assim como optamos com liberdade em qual vamos, também arcamos com todas as consequências. O amor ou a dor? Optar é fácil. Vamos no fluxo em que todos vão. Agora escolher… Ai requer maturidade, que geralmente só vem depois que optamos pelo veículo do sofrimento. Comigo não foi diferente.

O abençoar é uma escola, na qual se aprende a entrega, a aceitação e a profunda confiança na vida. Para isto, temos que ser humildes o bastante para acolher nossas deficiências, muitas vezes, oriundas do próprio campo familiar. Paradoxal isto não? Percebi que só há uma forma de lidar com este paradoxo. A profunda aceitação do que é. Uma aceitação que me faz dizer, do fundo do coração, “eu concordo”.

E daí caminhar, sem garantias, mas vendo brotar uma Presença, advinda da conexão que surge, quando não mais resisto. É como fazer uma refrescante limonada com um limão bem azedo e tomá-la, me sentindo revigorada durante a viagem. O poder de transformação, que surge de nossa força interna.

Hoje abençoo tudo o que passa pelo meu campo de percepção. Desde pessoas, até acontecimentos, sintomas, pensamentos e sentimentos.

É claro que nem sempre me lembro, mas quase sempre me lembro. Abençoar algo ou alguém gera espaço. Um espaço na consciência que nos tira de uma condição de reatividade automática. Sinto claramente a condição de estar dormindo, quando estou no automático. Quando reajo assim, são apenas as minhas memórias de dor que vivem não eu. A atitude de abençoar me confere acordar de um estado de condicionamento.

Percebo que, muito tenho a trilhar neste caminho, mas essas impressões já senti como reais. Por isto de escrever sobre o “Arquétipo da Bênção”, pois percebo que, se este caminho for percorrido com compromisso e dedicação, uma profunda impressão de caminho de poder é construído no inconsciente, gerando mais efeito benéfico desta tão simples atitude, que é bênção. Numa linguagem espiritual, abençoar é a entrega para um Poder Maior que nos compõe, e um profundo relaxamento de que Ele vai atuar. Ele sempre atua, gerando um Fluxo de Bem.

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